Exercicios para a Alma

 

Conteúdos desenvolvidos pela revista Gingko:

 

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Uma em cada quatro pessoas em todo o mundo sofre, sofreu ou vai sofrer de depressão. Para este mal, a comunidade médica privilegia cada vez mais outra resposta: a prática regular de exercício físico. Está provado que trabalhar o corpo ajuda a libertar a mente.

Texto de Catarina Duarte Fonseca/ Revista GINGKO
Fotos de AFFP


alma_artigo1_1O saco está pronto, à porta de casa. Tem que ficar feito de véspera para ajudar a prevenir desistências. É assim há dois anos. Dia sim, dia não. O sol ainda mal nasceu e Ana Costa já deu duas voltas ao recinto do Estádio Universitário. É quando lhe pesa a alma que mais se esforça.

“Por que é que estás triste?” Ana, 28 anos, não sabia responder.
Mas a melancolia profunda e paralisante foi-se arrastando e passou-se um ano, até que lhe foi diagnosticada uma depressão. “Comecei a sentir-me cansada e sem forças para ir às aulas. Deixei de ir ao bar da faculdade, só para não estar com os meus colegas. Tudo me irritava, desde uma ida às compras a uma refeição em família”. Emagreceu e refugiou-se em casa, no quarto. Só saiu semanas mais tarde, sem resistência, para ser observada por um psiquiatra. Os medicamentos ajudaram. Reergueu-se, reorganizou-se e voltou à licenciatura em Engenharia Agroalimentar. Mas por pouco tempo. “Caí outra vez no mesmo. Sentia-me a resvalar de novo, a perder o controlo sobre a minha vida. Acreditava que nada era capaz de fazer”. Regressou aos fármacos, que lhe deram força para aceitar o desafio do namorado e acompanhá-lo ao ginásio num dia de semana à noite. “Parecia que tinha levado uma tareia. No outro dia doía-me o corpo todo, mas, pela primeira vez em muito tempo, senti que tinha cumprido um objectivo”. Quis repetir a experiência e, meses depois, o exercício físico era parte da sua rotina. “Mudou-me o corpo e a alma. Quando corro consigo abstrair-me dos problemas e da pressão do dia-a-dia. Sinto-me com mais energia e mais capaz. E essa sensação perdura. O meu corpo também se alterou, o que ajuda a sentir-me melhor na minha pele. E às vezes nem é preciso correr; basta suar um bocado numa longa caminhada”.

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Durante três anos, uma equipa de investigadores do UT Southwestern Medical Center, nos Estados Unidos, dedicou-se ao estudo da contribuição do exercício físico, de forma isolada, para o tratamento de depressões moderadas. A pesquisa, que durou 12 semanas e em que participaram 80 adultos com idades entre os 20 e os 45 anos, revelou que os sintomas depressivos foram reduzidos em 47% nos indivíduos que participaram em sessões de 30 minutos de exercícios aeróbicos (pedalar numa bicicleta fixa, por exemplo) três a cinco vezes por semana.
Os resultados são comparáveis aos obtidos noutros estudos, em os pacientes foram tratados com anti-depressivos. Estas conclusões são ainda mais expressivas nas pesquisas sobre terapias mistas, ou seja, fármacos e actividade física. Neste contexto o exercício regular revelou-se determinante na prevenção de recaídas.
“O exercício físico não é apenas um escape; os seus efeitos prolongam-se para lá do momento da acção física”, garante Duarte Araújo, docente de Psicologia do Exercício na Faculdade de Motricidade Humana e o primeiro português a concluir o primeiro Mestrado Europeu de Psicologia do Desporto. “A prática de exercício permite ao indivíduo experimentar a sensação de auto-eficácia. O facto de traçar um objectivo e conseguir cumpri-lo, por mais simples que seja, actuará sobre a sua confiança e auto-estima”. Não é imediato. Demora tempo, entre três e seis meses, mas a forma de lidar com as pressões do dia-a-dia acaba por alterar-se. “O exercício físico reorganiza a forma como nos posicionamos profissional, social e emocionalmente”.
E há ainda a vertente neurofisiológica: “Um indivíduo deprimido sofre carência na produção de serotonina e noradrenalina. A actividade física estimula a produção desses neurotransmissores, que ligam os neurónios entre si. Os anti-depressivos têm o mesmo efeito”. Na verdade, a actividade física actua mesmo antes da depressão, como factor preventivo.
Estudos recentes, da Organização Mundial de Saúde, permitem a previsão de que em 2050 cerca de 50% da população mundial padecerá, ou já padeceu, de uma qualquer perturbação mental, de stresse, depressão e/ou ansiedade. Lidar com a pressão é cada vez mais difícil. É aqui que o desporto pode ter uma palavra a dizer, compensando essas fontes geradoras de conflito, mesmo antes da patologia.
“As emoções positivas libertadas pelo desporto ajudam a minorar sentimentos depressivos, de frustração, de raiva. Quem, por diversas razões, é mais frágil pode encontrar no exercício físico uma forma de garantir o equilíbrio”, diz Duarte Araújo. Efeitos estruturais, que podem ficar em causa se a actividade física for interrompida. “Não tem a ver com vício. Dizer que se está viciado na prática de desporto é o mesmo que dizer que se está viciado em trabalhar oito horas por dia. O que faz sentido é dizer que, suspensa a actividade física, desaparecem também os seus efeitos benéficos e essa alteração de rotina pode, em alguns casos, despoletar sentimentos depressivos que, antes, o desporto ajudava a minorar.”
É fácil perceber porquê, quando se repara no sorriso, hoje luminoso, de Patrícia Teixeira, O diagnóstico de uma hérnia discal colocou-a no caminho improvável do ginásio. Aos 30 anos, Patrícia, designer gráfica e professora de expressão artística, começou um plano de treino para tratar os males do corpo, escondidos que estavam os males da alma. “Sofri de depressão durante muito tempo, quase sem que alguém o soubesse. Intercalei esgotamentos e depressões até que há dois anos perdi, em absoluto, o controlo da minha vida. Foi assustador e tive que pedir ajuda”. Foi já medicada que conheceu Duarte Galvão, personal trainer e fisioterapeuta, peça-chave no seu processo de recuperação física e psicológica.
“A motivação é fundamental. Foi preciso insistir com a Patrícia para que viesse treinar”, adianta Duarte Galvão. “Depois foi necessário estabelecer com ela uma relação de confiança que lhe permitisse exteriorizar certas emoções.” Um ano depois, aos progressos físicos juntaram-se as alterações psicológicas. “Sempre que vejo que está mais tensa ou preocupada aumento a intensidade do treino. Aposto no efeito catártico e no bem-estar que sei que vai sentir a seguir e que vai ajudá-la a afastar os sentimentos menos positivos”. Exigente, Patrícia cumpre o plano de exercícios até ao fim, e num dia menos bom aplica-se ainda com mais afinco. “Nunca pensei que o exercício me ajudasse tanto a reencontrar o meu equilíbrio e sinto imediatamente os efeitos de 15 dias sem treinar. O simples acto de sair de casa com o saco para vir ao ginásio ajuda a estruturar a minha rotina, obriga-me a cumprir este compromisso. Não só com o personal trainer, mas também, e sobretudo, comigo mesma.”