Profissão: Diabético

 

Conteúdos desenvolvidos pela revista Gingko:

 

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PELA PRIMEIRA VEZ EM 200 ANOS, E JÁ NA PRÓXIMA DÉCADA, A ESPERANÇA MÉDIA DE VIDA VAI BAIXAR DEVIDO À DIABETES. A GINGKO FALOU COM MÉDICOS E PACIENTES PARA PERCEBER PORQUÊ. 

TEXTO: MIGUEL AMARAL MONTEIRO/Revista GINGKO

“Olá açucarados: Isto de ser um torrãozinho andante não é fácil, mas também a vida é para duros! Bem; como diabético já batido quero dizer-vos que se houver algo que possa fazer para colaborar com o bem-estar da malta, basta dizer”. 

Esta mensagem descontraída é de José Pinto, de 33 anos, e está num espaço de discussão para jovens diabéticos, inserido na comunidade virtual Hi5. O conteúdo transmite indicações relevantes sobre a vida com diabetes: é difícil, requer o apoio de terceiros e um espírito positivo. 

É também o que conclui um estudo deste ano, “A Diabetes em Portugal e no Mundo”, da Universidade Nova de Lisboa, ao referir que quem tem a doença há mais anos "se compensa pior", que os indivíduos solteiros ou viúvos correm um risco cinco vezes superior ao dos casados de terem um mau controlo da diabetes tipo 1, e que as personalidades "mais positivas, enérgicas e criativas" se tratam melhor, em oposição às que apresentam personalidades "mais fracas ou deprimidas".

Estes são alguns dos contornos de uma doença que é a quarta causa de morte nos países desenvolvidos. Mais: a Organização Mundial da Saúde alertou para que, devido à diabetes, a esperança média de vida baixará pela primeira vez em 200 anos, e já na próxima década. A responsável é a diabetes tipo 2, conhecida por diabetes não-insulino-dependente, que representa 90% dos doentes (veja caixa: “As diferentes diabetes”).

“As causas da diabetes tipo 2 são o sedentarismo, a obesidade, os alimentos de alto teor calórico e o aumento da esperança média de vida”, explica o endocrinologista e presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), Luís Gardete Correia. Para inverter a situação o médico defende uma aposta maior na prevenção, com “a alteração do estilo de vida” e o diagnóstico precoce, “para evitar que surjam complicações”. Mas a tarefa é difícil. Por exemplo, ao nível da prevenção Gardete Correia lamenta a “falta de educação para a saúde nos meios de comunicação social, em vez de tanta fofoquice e escândalos”. Esta ausência de informação dificulta o diagnóstico precoce. Os números são alarmantes. “Estima-se que um em cada dez portugueses seja diabético, ou seja, há de 300 mil a 400 mil casos não diagnosticados”, explica. Como “não é viável meter os 10 milhões de portugueses numa peneira temos que ir às populações de risco: familiares com diabetes e/ou excesso de peso, mães de bebés com mais de quatro quilos à nascença”.

Frequentemente o diagnóstico surge em exames de saúde não relacionados com a doença, ou em consultas de oftalmologia onde se detecta as lesões características no olho. Por vezes o diagnóstico é tardio.
“É uma doença muito traiçoeira, silenciosa, e quando é detectada está, por vezes, num estado muito avançado”, diz Isabel Oliveira. Esta professora de 65 anos descobriu há seis que era diabética. “Tinha os sintomas característicos: sentia a boca seca quando falava nas aulas, tinha vontade de urinar muito repentinamente, e uma certa debilidade física. Mas não liguei. Sou muito desleixada com a saúde e não gosto de ir ao médico”. Foi durante umas férias de Verão que pediu ao cunhado, também ele diabético, para medir a glicemia: “Tinha 302 mg/dl, um valor elevado, pelo que foi mais difícil de normalizar”.

Isabel trava uma luta diária com a comida, que inclui a complicada tarefa de “imaginar” dez refeições por dia. “Não me posso descuidar. Evito ao máximo os doces, batatas, arroz e massa. Como sopa duas vezes por dia, muita hortaliça e três peças de fruta, mas não posso comer figos e bananas”, desabafa. A vida com diabetes implica ainda três visitas anuais ao Hospital Santa Maria, cinco comprimidos diários - número que em alguns doentes chega aos nove - e, idealmente, três medições diárias da glicemia. No entanto, o controlo nem sempre é perfeito: “Só meço a glicemia duas vezes ao dia, e gosto sempre de acompanhar as refeições com um bocadinho de pão, embora os meus filhos me avisem para o não fazer”. Também há alturas em que a diabetes passa para segundo plano, como “quando há problemas na escola ou reuniões”.

Na diabetes tipo 2 há uma predisposição genética que, numa dada fase da vida, é despoletada por hábitos alimentares errados, sedentarismo ou stresse. A professora defende que, no caso dela e pertencendo a uma família com vários casos de diabetes, “foi mais a componente hereditária, até porque tinha uma vida muito activa e fazia grandes caminhadas”.

Agora a qualidade de vida já não é a mesma. “A diabetes afectou muito o meu bem-estar. Sinto as pernas muito cansadas, estou mais lenta, tenho má circulação, tenho de dormir com meias de lã. E, mesmo controlando a glicemia, tenho notado uma perda rápida na visão”, lamenta Isabel Oliveira.

As complicações da diabetes surgem em grande parte pelas lesões causadas nos vasos sanguíneos. A diabetes é a primeira causa de cegueira, insuficiência renal e amputações não resultantes de acidentes. É responsável por cerca de 30% das mortes por enfarte ou AVC.

Face a este cenário nunca é de mais realçar a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Tanto mais que se estima que a prática de exercício físico e uma alimentação correcta evitam 40% dos casos. Quando a doença se instala “é fundamental o controlo da glicemia, da tensão arterial e dos triglicéridos, pois é mesmo possível não ter complicações”, lembra Gardete Correia. O alerta já não é só para os maiores de 35 anos. “O número de doentes duplica a cada 15 anos e, actualmente, já se encontra jovens de 18 e 20 anos com diabetes tipo 2”, afirma o endocrinologista, embora advirta para que o valor possa estar sobrestimado já que, “no passado, os registos eram ténues e pouco fiáveis”.

A aposta na prevenção é também importante porque, segundo o diabetologista Rui Duarte, “não há nem haverá medicamentos revolucionários para tratar a diabetes tipo 2. Tem de se alterar o estilo de vida”. Rui Duarte é colunista da revista da APDP e escreve sobre “Novidades e perspectivas na diabetes”. Salienta que para este tipo da doença “houve um aumento do conhecimento científico e é necessário tratar melhor e mais cedo o açúcar no sangue e a tensão arterial”. 

O futuro para os diabéticos tipo 1 é mais animador. “Há evoluções quase todos os dias e a qualidade de vida melhorou muito. Há melhores insulinas e a forma de administrar é muito mais simples do que há 20 anos. E caminha-se a passos curtos, mas certos, para um tratamento que pode passar por células semelhantes às do pâncreas”, revela Rui Duarte.

A terapia celular pode estar a dez ou 20 anos de distância e, para já, os transplantes de pâncreas resultam em apenas 70% dos casos, e durante quatro anos. No entanto, “já há protótipos que funcionam como um pâncreas artificial, mas o preço é muito elevado e o mecanismo que informa sobre o nível de glicemia é pouco fiável”, explica o diabetologista.

A perspectiva de médico e paciente coincidem quanto à evolução da qualidade de vida. Alexandra Costa tem 24 anos e é diabética tipo 1 há dez. “Há muitas melhorias. O aparelho de medir a glicemia demorava 30 segundos a dar um resultado, e agora são apenas cinco segundos. E a quantidade de sangue necessária também é menor”. A evolução nota-se ainda na forma de administrar a insulina: “A insulina rápida durava quatro horas, o que implicava prever a vida para esse período. Agora, como já há de duas horas, se receber um convite, por exemplo, para fazer desporto, basta fazer um pequeno reforço da insulina”.
Alexandra considera a diabetes um trabalho diário. “Meço a glicemia cinco vezes ao dia e injecto a insulina uma vez à noite, que dura 24 horas, e outra durante o dia, que dura duas horas e serve para corrigir os níveis da glicemia que variam consoante os hidratos de carbono que como”. A rotina passa ainda por idas ao médico a cada três meses. Já em relação à comida, a jovem estudante de Ciências da Educação diz ter o mesmo cuidado que qualquer pessoa que tenha uma alimentação saudável: “Os bolos e os alimentos altamente calóricos devem ser excepção, mas quando apetece como, e depois injecto a insulina para compensar”.

Hoje Alexandra vive em paz com a doença. Gosta de dizer: “Temos que adaptar a diabetes à nossa vida e não a vida à diabetes”. Pratica corfebol, e até é campeã nacional da modalidade, pelo Núcleo de Corfebol de Benfica. A adaptação estende-se à caneta de insulina e ao aparelho para medir a glicemia que carrega para todo o lado, que “são mais bonitos e atraentes” do que antes, e que “permitem controlar a profundidade da pica conforme os dedos de cada um”. 
Mas nem sempre foi assim. O início foi particularmente complicado. A mãe, filha de uma diabética, reconheceu-lhe os sintomas: emagrecia apesar de comer muito, e urinava frequentemente. Na escola teve que informar os professores sobre a diabetes. “Disse aos amigos mais próximos, mas ao resto dos colegas demorou uns meses. Não escondia que tinha a doença, até porque injectava a insulina a mim própria. O que custava mais eram os olhares de 'coitadinha', inclusive de alguns professores”.
O medo de não ter uma vida normal desapareceu um ano depois, numa colónia de férias de Verão da Associação de Jovens Diabéticos de Portugal. “A partir daí tudo foi mais fácil. Conheci outros diabéticos, trocámos experiências e falámos dos nossos receios. E aprendi a regular a insulina às necessidades do desporto”. Para Alexandra, a maior lição é que, “com muito auto-controlo, conseguimos fazer as mesmas coisas que toda a gente”.

Em relação à diabetes tipo 2 diz-se que é a doença dos ricos nos países pobres, dos pobres nos países ricos. Ou seja, é consequência de má alimentação e mau estilo de vida. Por isso, também Rui Duarte alerta para a necessidade da prevenção e lembra que, “mais do que educação, trata-se de uma questão de cultura, que passa por áreas tão variadas como a educação para a saúde na infância, a legislação, por exemplo na rotulagem, ou a arquitectura das cidades, de maneira a criar espaços onde fazer exercício ao ar livre”. Para já os portugueses não parecem caminhar no sentido certo, pois, segundo o 4º Inquérito Nacional de Saúde, o número de diabéticos aumentou cerca de 40% nos últimos sete anos.
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AS DIFERENTES DIABETES
TIPO 1 - Também conhecida por Diabetes Insulino-Dependente, representa cerca de 10% dos casos e atinge principalmente crianças e jovens. Resulta da destruição das células do pâncreas que produzem insulina. As causas não são totalmente conhecidas, mas sabe-se que é o próprio sistema de defesa da pessoa que ataca e destrói as suas células pancreáticas. 
As pessoas com diabetes tipo 1 necessitam de terapêutica com insulina para toda a vida.
TIPO 2 - Também conhecida por diabetes não-insulino-dependente, ocorre em indivíduos que herdaram uma tendência para a doença e que, devido a alimentação errada, stresse ou a mau estilo de vida desenvolvem a diabetes na idade adulta. Geralmente ocorre em pessoas com tensão arterial elevada, e com gorduras (colesterol ou triglicéridos) a mais no sangue. O pâncreas produz insulina, mas, gradualmente, a má alimentação e o sedentarismo tornam o organismo resistente à sua acção. O excesso de gordura, sobretudo a abdominal, é determinante para a insulinorresistência. 
GESTACIONAL - Surge durante a gravidez e, geralmente, desaparece após o parto. No entanto, mais tarde, quase metade destas grávidas desenvolverá diabetes tipo 2, caso não se tome medidas de prevenção. Ocorre em uma em cada 20 grávidas.
OUTRAS - Há algumas formas raras, por exemplo a MODY (Maturity-Onset Diabetes of the Young), com características semelhantes à tipo 2. Resultam de uma mutação genética que altera a tolerância à glucose.