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Conteúdos desenvolvidos pela revista Gingko

Estudos mostram que quem faz dietas - e ainda não engoliu o conceito de reeducação alimentar - emagrece numa primeira fase, mas depressa volta a engordar. Pior: engorda mais.
Texto de Catarina Fonseca/ Revista GINGKO Fotos de Filipe Pombo/AFFP
“Em bicos de pés, com a barriga encolhida e as costas bem esticadas. Só assim é que me consigo ver ao espelho. Ainda hoje.” Palavras de quem, um dia, decidiu quebrar de vez o fio das dietas “iô-iô”, de tanto esticar e encolher o peso. ”Para cima e para baixo, cima e baixo. O meu peso chegava a oscilar quatro quilos por mês, o terrível efeito sanfona”, conta Cristina Dias, jornalista freelancer, que há vários anos colabora com diversas publicações. “38, 40, 42 e até 46. Já experimentei todos os tamanhos, mas não consegui existir em nenhum”, diz, entre risos. A história de excesso de peso é longa e passa pelos lanches de pão com chocolate e laranjada em casa da avó. Mas só na puberdade é que os quilos a mais começaram a incomodar a sério. “Era a mais pesada da turma e isso valia-me os piropos do costume. Depois, nada me ficava bem. Nem as calças de marca, nem as camisolas da moda.” Hoje, Cristina Dias estabilizou o peso e quem a vê na rua não diz que travou uma luta sem tréguas consigo própria. “Houve um momento, devia ter uns 16 anos, em que prometi a mim mesma que não continuaria a ser gorda. Comecei a passar fome. Literalmente.” E os resultados viam-se de dia para dia. “Saltava refeições, bebia litros de água para enganar o estômago e em seis meses perdi muito peso. Notava-se na roupa, as pessoas davam-me os parabéns.” Por isso, achava que estava no caminho certo. E continuou. “Até que fui à festa de anos de uma prima onde havia muitos doces, a minha perdição! E comecei a comer. E nessa semana e na seguinte, a dieta foi por água abaixo. E com ela foram todos os quilos que tinha perdido - e mais 2 ou 3 que ganhei para me lembrar da aventura.”
Ironia cruel. Estudos demonstram exactamente isso: quando se faz as contas com a balança, a gordura vence. Uma pesquisa realizada por psicólogos da UCLA, Universidade da Califórnia, em Los Angeles - publicada em Abril do ano passado na American Psychologist, publicação da Associação Americana de Psicologia - mostra o que muita gente que faz dieta a vida inteira já desconfiava: dietas emagrecem num primeiro momento, mas quando as pessoas param, a maioria recupera o peso perdido. Ou, como aconteceu a Cristina Dias, ganha ainda mais. “Teria sido melhor se as pessoas não tivessem feito qualquer dieta. O peso seria mais ou menos o mesmo e os organismos não teriam sofrido os efeitos negativos de ganhar e perder peso continuamente”, pode ler-se no estudo. Os dados são aflitivos. Entre um e dois terços dos pesquisados recuperaram mais quilos do que o total perdido ao longo de quatro a cinco anos. E no grupo das pessoas controlado por mais de dois anos, 83% voltaram a engordar.
 “Chamo-lhes cicatrizes de peso. Cada vez que emagrecia e depois voltava a ganhar peso ficava com aqueles quilos a mais, cicatrizes que me lembravam de mais um falhanço”, diz Cristina Dias. Que se foram acumulando até que pediu ajuda. “Hoje, aos 36 anos, sei que nunca serei magra, não terei um corpo anguloso e vivo bem com isso. Há dois anos que mantenho o mesmo peso: 65 quilos. É um peso saudável para a minha estatura e um recorde. Sempre tracei uma meta irrealista em relação ao meu peso.” Esse é um dos erros mais comuns. “Traçar metas disparatadas que nunca poderão ser cumpridas e que depois se tornam sinónimos de frustração.” Equívocos que, para Alexandra Bento, presidente da Associação Portuguesa dos Nutricionistas, pouco ou nada têm a ver com a saúde, mas com a estética. “É preciso perceber quais as motivações que levam alguém a perder peso. Conhecer a história e evolução do peso de cada um e avaliar as expectativas. Não há regime alimentar que tenha sucesso se não tiver em conta os desejos de quem o vai pôr em prática.” Não há milagres. E, na maioria das vezes, quem procura um nutricionista já sabe isso, e até já fez dieta sozinho. Uma e outra vez. “Dieta é um termo que os nutricionistas não gostam por estar tão associado a privação, a proibição. Por isso, preferimos falar na modificação de hábitos alimentares, até porque, na essência, dieta nem sequer significa emagrecer. Faz-se dieta também para engordar”, afirma Alexandra Bento. “Perder peso bem perdido é difícil: é aquele que não se volta a ganhar. Mas isso leva tempo e a maioria das pessoas quer resultados imediatos.” Embarca, por isso, em dietas radicais, para que a roupa comece, rapidamente, a dançar na cintura. “Quando se deixa de comer para perder peso, o corpo entra em autofagia e passa a alimentar-se de si próprio e não de gordura, mas dos chamados tecidos nobres. Perde-se músculo e depois, é muito difícil voltar a ganhá-lo”, diz Alexandra Bento. É por isso que a lógica da privação seguida da compensação faz estragos. E, acredite, não passa de uma ilusão. Que o diga Francisco Oliveira da Silva, advogado num conhecido escritório de Lisboa, que ele prefere não revelar. Por razões de saúde, pôs pela primeira vez os pés no consultório de um nutricionista. “Estava no café com uns amigos quando senti um aperto no peito, uma espécie de dor lancinante. Nem consegui pedir ajuda.” Aos 24 anos o coração pregou-lhe um susto, cansado que estava de carregar há uma década os mais de 100 quilos de peso. Foi cedo, é raro, mas acontece e foi o que bastou para que decidisse mudar de hábitos alimentares. Por outras palavras: mudar de vida. “Tive que revolucionar o meu quotidiano. Desde os 12 anos que o meu pequeno-almoço incluía dois bolos. Depois, ao lanche, comia mais dois. Pão não podia faltar à mesa, nem refrigerantes”, conta Francisco. A cada ano que passava foi ganhando mais peso. “O pior foi quando entrei para a universidade.” Tímido, o excesso de peso fazia-o sobressair. “Nunca me senti tão sozinho. Via os meus amigos saírem com raparigas e eu não. Combinavam tardes na praia e eu, com vergonha, nunca aceitei os convites. Se fosse agora, aceitava.” Foi por isso que no último ano da licenciatura decidiu emagrecer. A qualquer custo. “Fui a uma ervanária e pedi uns comprimidos para tirar o apetite. Não resultaram. Então decidi ser radical: nada de sólidos. Emagreci sete quilos em duas semanas e depois, quando já não aguentava mais, recomecei a comer. Foi uma desgraça. Ganhei o que tinha perdido e mais uns tantos quilos. Cheguei a pesar 118.” Hoje tem mais sete anos e menos 27 quilos - pesa 91. Cumprindo à risca um plano alimentar feito à medida e tendo em conta as exigências da vida de um jovem advogado, Francisco Oliveira Silva cumpriu o primeiro objectivo a que se propôs: perder cerca de 10% do seu peso inicial. “Nunca quis ser magro. Mas queria deixar de me cansar com tanta facilidade, de me encolher sempre que tinha que me sentar na cadeira de um restaurante e de me sentir mal. Mal comigo, com o meu corpo”. “Emagrecer custa muito e pode minar a autoconfiança”, avança a conceituada endocrinologista Isabel do Carmo, uma das maiores especialistas portuguesas em obesidade e comportamentos alimentares. “Se a perda de peso é feita à custa de restrições abruptas, sem que haja modificação real dos hábitos alimentares, então é quase certo que os quilos perdidos vão voltar. E, atrás deles, o sentimento de fracasso.” Há quem passe uma vida inteira de privação sem perceber que mais vale contabilizar o que se gasta do que aquilo que se consome. “A chave para uma perda de peso sustentada é perceber quantas calorias o organismo vai queimar, para depois calcular quantas terá que consumir.” Duas palavras: exercício físico. “Não só é a forma mais eficaz de perder peso, como aquela que permite mantê-lo. Conjugado com um regime alimentar adequado, fazer exercício leva a que o corpo queime mais calorias do que consome e é isso que leva à perda de peso”, avança Isabel do Carmo. Não adianta, portanto, comer menos, se as poucas calorias ingeridas não são gastas. “Ao fim de muitas dietas, o próprio organismo começa a habituar-se ao estado de privação e torna-se cada vez mais difícil perder peso.” Ainda por cima, é preciso travar e ganhar outra batalha contra certas fases da vida. Para Isabel do Carmo, “os chamados agentes desencadeadores podem fazer oscilar o peso de forma significativa. É preciso estar atento e identificar esses momentos chave.” (Veja a caixa “Atenção… perigo de engordar!). Os números não mentem. A obesidade não pára de crescer em todo o mundo e surge cada vez mais cedo. Em 2050 é provável que cerca de 60% da população sofra de excesso de peso. No entanto, um estudo realizado no Reino Unido, mostra que 15% dos adultos gasta, em média, 30 minutos a uma hora por dia a pensar no seu excesso de peso. Tempo perdido, dirão alguns, tanto mais que um em cada três admite mesmo fazer dieta pelo menos uma vez por mês, que acaba, invariavelmente, sem resultados. Tudo somado, ao fim de uma semana são sete horas, ao fim de um ano, 365! Tempo mais do que suficiente para traçar um plano alimentar e começar a mudar aos poucos - e ainda sobra para uma boa caminhada. Feita de pequenos passos. E porque não?
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