Mamã, estou gordo!

 

Conteúdos desenvolvidos pela revista Gingko:

 

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gordo_artigo5_1Seis meses. É o que perde, em esperança média de vida, quem vive em Lisboa ou no Porto. A poluição do ar e a alimentação cada vez mais pobre em nutrientes e vitaminas é uma combinação explosiva. 

Texto de Catarina Duarte Fonseca/ Revista GINGKO 
Fotos de Paulo Castanheira/AFFP

Estará a Terra à beira da extinção?
Os discursos dramáticos e às vezes alarmistas dos peritos têm dividido opiniões. Existem dados contraditórios e teorias diversas mas uma coisa é certa: a forma como o Homem tem gerido os recursos do planeta é desastrosa. A poluição, nas suas mais variadas formas, está a condenar a Terra e a afectar todos os seres vivos.

A vida nas cidades é cada vez mais intoxicante. A água, o ar e os alimentos estão contaminados pelos estragos silenciosos de todos nós. Dá vontade de largar tudo mudar-nos de vez para o campo. Mas quase ninguém pode adoptar essa saída bucólica para se livrar dos males da cidade. Não é fácil mudar de vida, e mais difícil ainda é mudar de hábitos. Por isso, quem ainda não encontrou o seu refúgio campestre, tem que começar, hoje, a alterar comportamentos.

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Os números são claros. “Por causa da falta de qualidade do ar, em Lisboa e no Porto existe diminuição da esperança média de vida de cerca de seis meses”, garante Francisco Ferreira, vice-presidente da associação ambientalista Quercus. “Os estudos que já foram feitos, no âmbito da Estratégia Europeia para a Qualidade do Ar, indicam que a poluição tem grande influência no surgimento de doenças e no aumento da mortalidade”. Em cada ano a poluição do ar mata 2 milhões de pessoas em todo o mundo. Em grandes cidades chega a provocar 2.500 óbitos, mais do que a Sida. A poluição provoca inflamação nas vias respiratórias, crises de asma, distúrbios como elevação da tensão arterial, estreitamento dos vasos sanguíneos e redução da capacidade cognitiva em dias de maior concentração. As consequências a longo prazo preocupam ainda mais. Testes sanguíneos indicaram mutações nas células, que favorecem o aparecimento de alguns tipos de cancro, como o de pulmão.
Em Lisboa, a monitorização da qualidade do ar é feita em quatro locais: Olivais, Restelo, Entrecampos e Avenida da Liberdade. Os dados podem ser consultados em www.qualar.org e revelam uma realidade preocupante: “O principal problema são as partículas, cuja existência está intimamente ligada ao tráfego rodoviário. Para ter uma ideia, em 2005 Lisboa registou valores sempre acima do permitido em 186 dias do ano, quando o recomendado é que os níveis mais elevados não excedam os 35”, diz Francsico Ferreira.

As causas estão bem identificadas. O problema está no excesso e no tipo de automóveis que todos os dias circulam nas artérias da capital. “Os carros a gasóleo são os que poluem mais e estão em maioria entre os táxis de Lisboa. Alguns autocarros também são um problema. O parque automóvel está envelhecido, o que contribui para maior emissão de partículas”, alerta Francisco Ferreira.

São estas partículas que estão a tornar o ar irrespirável. Um estudo realizado pela Universidade Nova de Lisboa, apoiado pela Fundação Gulbenkian, revela que grande parte dos casos de complicações respiratórias que chega à urgência pediátrica do Hospital D.Estefânia está relacionada com o ar poluído que as crianças respiram. Elas são mais sensíveis às partículas mais finas que levam nitratos, sulfatos, metais pesados e substâncias cancerígenas até aos pulmões.

  

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A Organização Mundial de Saúde revela que uma em cada três mortes de crianças europeias está associada à má qualidade do ambiente, o que representa cerca de 34% do total da mortalidade infantil no velho continente. Os casos de doenças respiratórias,

como asma ou rinites alérgicas, não param de aumentar e até outras doenças associadas à poluição, como a leucemia, têm registado impressionante crescimento. Em Portugal esta tendência é confirmada pela Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica. Além da base genética da asma e das doenças alérgicas a poluição é um factor desencadeador de complicações respiratórias e, ao contrário do que se poderia supor, quem vive nas cidades corre maior risco de desenvolver alergias aos pólenes do que quem habita no campo. Os poluentes urbanos interagem com os pólenes e aumentam a sua agressividade. Quem vive em zonas poluídas, sobretudo com muito tráfego automóvel, tem duas vezes mais possibilidades de se tornar alérgico.

 

Há que fazer as contas ao tempo, ao dinheiro e às consequências para a saúde. Para Francisco Ferreira a solução é óbvia: “É preciso andar menos de carro. E na altura de escolher um automóvel optar por um modelo mais pequeno mas mais moderno com um nível de emissões de CO2 mais baixo. Se tiver que ser a gasóleo, escolher um carro com filtro de partículas. Nos carros a gasolina optar pelo GPL. E claro, existem os híbridos, que estão cada vez mais baratos”. E dá o exemplo: “Há pouco tempo comprei um híbrido por 21 mil euros, o mesmo valor que pagaria a gasolina, já que tive 40% de desconto no imposto automóvel”.
Mas o esforço tem de ser colectivo. “O exemplo deve começar nas empresas, que oferecem carro, gasolina e estacionamento, mas muitas não pagam o passe aos colaboradores”, sublinha o vice-presidente da Quercus. Ele lança o desafio: “É preciso apostar no trabalho a partir de casa”, uma realidade comum noutros países mas ainda uma excepção em Portugal. A Agência Municipal de Energia de Gaia (Energaia), que permite aos colaboradores trabalharem um dia por semana em teletrabalho, é ainda caso raro.

Andar a pé pode ser opção. Informe-se também antes de migrar para a moto. Ela pode poluir até sete vezes mais porque, sem incentivos fiscais, nem todos os fabricantes instalaram catalisadores para tratar os resíduos da combustão. Os transportes públicos são outra alternativa. Para ter uma ideia, uma única linha de metro na cidade brasileira de São Paulo economiza 3 milhões de barris de petróleo por ano. Curiosamente, e apesar da subida constante do preço dos combustíveis, o aumento não se tem reflectido nas emissões de gases com efeito de estufa pelo sector dos transportes, que permanecem 96% acima do valor registado em 1990. Por isso, em 2006, Portugal ultrapassou em 13% o limite fixado pelo Protocolo de Quioto.

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Quem não consegue substituir o carro pode, pelo menos, optar pela “ecodriving” ou condução ecológica. Os conselhos são básicos e fáceis de seguir: ao arrancar acelere rapidamente mas sem carregar no pedal até ao fundo; tente conduzir a uma velocidade constante, com a mudança mais alta possível; sempre que puder, trave com o motor; desacelere lentamente e tenha sempre a pressão dos pneus suficientemente alta; não se esqueça de mudar o óleo e os filtros periodicamente. Pode parecer pouco, mas já é uma ajuda. Portugal e a Europa têm um longo caminho a percorrer neste domínio.

 


Direito à escolha
É certo que não pode escolher o ar que respira. Mas tem uma palavra a dizer em relação ao que se consome todos os dias. Hoje, no carrinho do supermercado viajam muitas outras substâncias além dos vegetais, frutas, carne ou peixe. Seguem também pesticidas, adubos e outros agentes químicos. De todos os produtos de consumo, é a comida o que causa maior impacte no ambiente, segundo a Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. A produção de carne é uma das maiores ameaças para o planeta, devido à poluição da água, ao impacte sobre a biodiversidade e à dimensão das pastagens. Estas são algumas das razões que levam milhares de consumidores em todo o mundo a optar pela Agricultura Biológica, um sistema de produção holístico que promove e melhora a saúde do ecossistema agrícola, ao fomentar a biodiversidade, os ciclos biológicos e a actividade biológica dos solos. “Ecológica, sustentável e socialmente responsável”, é assim que é apresentada pela Associação Portuguesa de Agricultura Biológica.
Paradoxalmente, é nas cidades que a agricultura biológica encontra a maioria dos seus consumidores, sedentos do sabor e qualidade de produtos mais naturais. Em Portugal existem quatro mercados biológicos onde é possível encontrar esses produtos: em Lisboa, no jardim do Príncipe Real, em Oeiras, em Matosinhos e um recém-criado em Aveiro. Funcionam todos os sábados até às 14 horas e têm sido responsáveis pela dinamização de um sector que está ainda a dar os primeiros passos em Portugal. Um dos principais entraves à generalização do consumo destes produtos é o preço. Os alimentos chegam a custar mais do dobro dos não-biológicos. No entanto, e segundo a Agrobio, associação de agricultura biológica, o valor nutritivo também é diferente. 
“Cultivados em solos equilibrados por fertilizantes naturais, os alimentos biológicos têm maior teor em vitaminas, minerais, hidratos de carbono e proteínas”. 
A comparação nutricional das características dos alimentos nem sempre reúne consenso. Em causa estão factores que podem condicionar o confronto entre os alimentos biológicos e os ditos convencionais. No entanto, e perante as mesmas condicionantes, investigadores da Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos, concluíram que, no caso dos espinafres, a quantidade de ferro nos biológicos era 97% mais elevada do que nos espinafres convencionais. O teor em manganês (elemento químico essencial para todas as formas de vida) era 99% superior.
Também a Newcastle University chegou à mesma conclusão: o leite biológico pode conter entre 50% a 80% mais antioxidantes, que ajudam a combater o cancro e problemas cardíacos, do que o leite convencional.
Apesar de tudo isto, como humanidade continuamos a não ver a nossa responsabilidade pela terra em colapso. Um estudo da Universidade Dalhousie, no Canadá, comprova que um terço dos peixes desapareceu dos oceanos. Da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, vem a informação de que, se não forem tomados cuidados de protecção à água, este será o último século com frutos do mar. Os rios também sofrem, comprometendo o abastecimento das cidades.
O economista Nicholas Stern divulgou um estudo encomendado pelo governo do Reino Unido, no qual diz que em 50 anos sentiremos o impacte dos danos à saúde do planeta - ele virá sob a forma de secas, enchentes e furacões. Mesmo que os gases tóxicos caíssem a zero daqui para a frente, o futuro melancólico previsto por Stern não seria totalmente evitado. O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) usou outras medidas para dimensionar o buraco: num ano, o homem consome 25% mais recursos do que o planeta é capaz de repor. Isso significa que os nossos netos, em 2050, vão morar numa Terra em colapso, porque seriam necessários mais de dois mundos para suprir tal demanda. É preciso fazer algo: aqui e agora.

Alternativa Real
Edite Espadinha
35 anos
Jornalista na Companhia de Ideias
Dois filhos de 12 e 9 anos
Andar a pé e de transportes não é excepção, é uma regra.
“Numa sociedade onde o carro é protagonista, as pessoas só vão onde o automóvel as deixa chegar. Não vão onde querem mas onde podem. Por usar transportes públicos não me levanto mais cedo do que aqueles que enfrentam filas intermináveis para chegarem ao trabalho. Muitas vezes estamos lado a lado no trânsito, mas a diferença é que eu vou a ler ou a observar o que me rodeia. Quem vai no carro está mais tenso ou segue anestesiado pelo rádio, a lamentar a cidade. Andar a pé é uma possibilidade de ser turista na minha própria cidade, de redescobri-la e criar rotinas saudáveis. É uma espécie de ecologia interior que tento transmitir ao Gabriel e à Beatriz. Como todas as crianças são curiosas. As caminhadas até à escola, até ao parque ou ao supermercado arranca-os do sedentarismo e obriga-os a olhar para fora e para os outros.”

Somos o que comemos
Patrícia Maio
36 anos
Produtora na Companhia de Teatro Chapitô
Alimenta-se quase exclusivamente de produtos biológicos
Há 16 anos que não consome carne
“A alimentação é o início de tudo, parte de um todo que é viver em equilíbrio comigo e com o que me rodeia. A partir da adolescência comecei a ter consciência do risco que representa consumir alimentos geneticamente modificados e com toxicidade elevada. Optei por produtos biológicos. Cada alimento tem propriedades preventivas e curativas, por isso é preciso escolher os mais indicados. Hoje, as pessoas comem de tudo sem pesar as consequências. O que consomem interfere com o seu comportamento, agressividade e capacidade de concentração. Os alimentos biológicos sabem melhor, fazem melhor, respeitam o equilíbrio da natureza. Só como produtos da estação e alimentos com certificação biológica. Vejo a alimentação como parte integrante de uma filosofia de vida.
Viver na cidade tem os seus contras mas também tem benefícios que é preciso explorar: em Lisboa encontro produtos biológicos com facilidade, refeições macrobióticas e enorme variedade. Infelizmente, o preço continua a ser exorbitante.”