Células Mágicas

 

Conteúdos desenvolvidos pela revista Gingko:

 

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celulas_artigo6_1A comunidade científica está de olhos postos na investigação com células estaminais. Capazes de reconstituírem qualquer tecido vivo, prometem uma revolução profunda na medicina. 

Texto de Teresa Violante / Revista GINGKO
Fotos de AIC e AFFP

Imagine que precisa de um transplante de órgãos. Fica em lista de espera. E, então, espera e desespera por um dador compatível. Agora imagine que a partir de determinadas células seria possível reconstituir o seu órgão. Pois esse é o futuro da medicina. E não estará tão longínquo quanto se possa imaginar. 
As chamadas células estaminais, tronco ou mãe, são a fórmula mágica para combater doenças tão diversas como Parkinson, diabetes ou artrite reumatóide. E as suas potencialidades são infinitas.

“As células estaminais têm capacidade de auto-replicação contínua, são capazes de se diferenciar em todos os tipos de células do animal adulto e reconstituir, funcionalmente, qualquer tecido in vivo”, explica José António Belo, coordenador do Laboratório de Embriologia e Manipulação Genética da Universidade do Algarve. “Completamente indiferenciadas, têm o potencial de originar qualquer tipo de células, de neurónios a pele ou coração”. Podem ainda substituir células ou tecidos danificados no corpo. “Será possível, num futuro próximo, utilizar estas células para reparar de forma dirigida e inteligente células doentes do nosso corpo e, deste modo, reparar a nível celular tecidos e órgãos, evitando assim cirurgias de transplantes”, afirma o investigador, também presidente da assembleia geral da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (SPCE-TC).
Mas onde se encontram estas células? De acordo com a sua origem é possível distinguir três tipos: células estaminais embrionárias, células estaminais adultas e células do cordão umbilical. As primeiras, como o nome indica, “apenas se obtém a partir do botão embrionário, uma pequena massa de células que se encontram no interior do blastocisto, estrutura embrionária em forma de esfera oca”, esclarece o cientista. As segundas são responsáveis pela reposição de células do organismo que vão morrendo, do sangue à pele. As terceiras encontram-se apenas no cordão umbilical do bebé, sendo recolhidas durante o parto. 

Questões éticas 
Quando, em 1998, James Thomson, cientista da Universidade Wisconsin, EUA, informou ter colhido com sucesso células de embriões excedentários de clínicas de fertilidade e criado a primeira linha de células estaminais embrionárias humanas, estalou a polémica. A utilização de embriões para investigação científica tem levantado um sem fim de interrogações éticas. Valores religiosos e decisões políticas saltam para a linha da frente, impondo limites à investigação científica. A questão é delicada. Não é geralmente aceite que se crie um lote de embriões humanos destinados só a gerar uma vida, e outro apenas para formação de material biológico. E também em termos jurídicos se instala a dúvida: o embrião é sujeito ou objecto, pessoa ou coisa? Onde alguns vêem benefícios para a saúde humana outros vêem o aparecimento de cenários tenebrosos, com a criação de quintas de embriões ou fábricas de clonagem. 
Instalado o impasse, a ciência tem procurado rumos alternativos. Em Novembro passado duas equipas de cientistas, uma norte-americana, da Universidade de Wisconsin, e outra japonesa, da Universidade de Quioto, anunciaram ao mesmo tempo uma descoberta revolucionária: a transformação de células da pele humana em células estaminais embrionárias. Estava aberta uma nova linha de investigação. No entanto, nenhum dos grupos conseguiu provar que essas células, por sua vez, conseguiam transformar-se noutras células de diferentes tecidos do organismo. Foi necessário esperar pouco mais de dois meses para nova revelação. Katrin Plath e William Lowry, da Universidade da Califórnia, reprogramaram células da pele através da manipulação de quatro genes, forçando-as a regredir até à fase de células estaminais embrionárias, e conseguiram que se transformassem em células de outros tecidos. Eureka. 
O feito põe fim à utilização e destruição de embriões, muito contestadas e que levaram o governo de George Bush a congelar financiamentos públicos à investigação em células estaminais. É “um marco importante. Abre de novo as portas à utilização de células estaminais embrionárias, as que têm maior potencial de diferenciação, pois já não será necessário recolher estas células a partir de embriões. Acaba assim um dos principais impedimentos éticos à sua utilização”, considera José António Belo.

Santo Graal da saúde? 

Os progressos alcançados na investigação de células estaminais são acompanhados de perto pela comunidade científica, e também por outros quadrantes da sociedade. Associações de diabéticos ou de doentes com Alzheimer, artrite ou problemas cardíacos, recebem com igual entusiasmo e expectativa cada avanço da ciência. Ansiosos por tratamentos inovadores e eficientes, vêem em cada descoberta mais um passo rumo à cura. O facto de as células tronco poderem transformar-se num de mais de 200 tipos de células do corpo humano é, só por si, motivo de esperança. 
Christopher Reeve, para sempre associado à personagem do Super-homem, foi um dos mais mediáticos defensores da investigação com células estaminais embrionárias. Vítima de paralisia na sequência de uma queda de cavalo, batalhou afincadamente pela aprovação de legislação que permitisse à comunidade científica testar as potenciais aplicações das células. Para o actor, que faleceu em 2004, o futuro da ciência residia claramente nas células-mãe. 
Para o avanço da ciência efectuam-se experiências em animais geneticamente modificados, “ferramenta preponderante na Ciência Biomédica”, diz o coordenador do Laboratório de Embriologia e Manipulação Genética da UALG. E acrescenta: “Por inactivação de genes específicos, que são também os que estão defeituosos em doenças genéticas humanas, é possível estudar animais que são modelos de doenças humanas”. Assim, há animais com diabetes, Huntington ou Parkinson. 
Em Portugal há um vazio legal quanto à investigação com células estaminais embrionárias humanas. O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda apresentaram no Parlamento dois projectos-lei que, passados alguns anos, ainda não resultaram no enquadramento legal da investigação. A Lei da Procriação Medicamente Assistida inclui referências quanto à utilização de embriões humanos para investigação, mas “não estabelece qualquer regulamentação de utilização desses embriões para linhas de células estaminais embrionárias humanas, nem para utilização de linhas já existentes, feitas por outros investigadores no estrangeiro”, aponta José Belo.

Seguro de vida ou luxo?

Por entre a incerteza e a esperança surgiu um mercado em torno das células-tronco, em especial as recolhidas no cordão umbilical. Apesar de opiniões médicas e científicas serem divergentes, um número crescente de pais aposta na criopreservação das células dos seus filhos. O processo é simples e isento de riscos para a mãe e para o bebé. A recolha de células decorre no período que medeia o nascimento da criança e a expulsão da placenta, sem interferir no ritmo normal do parto. 
Arlete Manarte, médica obstreta numa clínica privada em Coimbra, é apologista da criopreservação e refere a todas as mulheres grávidas que acompanha as vantagens do processo. “Mais de 90% fazem. E quando não o fazem é, sobretudo, por razões económicas”, diz. Nos últimos anos têm surgido no mercado várias empresas de criopreservação das células embrionárias, mas os valores praticados são idênticos, oscilando entre 965 e 1200 euros. Quanto às críticas dos mais cépticos, que realçam a diminuta utilização das células, a médica responde: “Estou convencida de que num curto espaço de tempo terá mais aplicações”. Para os opositores da criopreservação a probabilidade de utilização das células umbilicais, guardadas durante 20 anos, é tão baixa que não justifica o investimento. Segundo dados da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais, actualmente apenas um em cada 20 mil indivíduos utilizará as suas células criopreservadas. Nada que faça Arlete Manarte mudar de opinião: “Vale sempre a pena”, reforça. 
Opinião contrária tem Rita Lopes dos Santos, médica de família no Centro de Saúde de Sacavém, extensão de Moscavide, que acompanha grávidas nas consultas de medicina familiar. “Do ponto de vista da relação custo/benefício é um luxo. Não é um seguro nem uma garantia”, afirma. “A probabilidade de a criança ter uma patologia em que venha a necessitar das células é muito baixa. E na maior parte dos casos de doenças oncológicas do sangue, que muito preocupa os pais, recorre-se à quimioterapia e não ao transplante”. Mãe de dois filhos, um de 3 anos e outro de 7 meses, optou de forma consciente por não fazer a recolha do sangue do cordão umbilical. E do seu círculo de amigos médicos não conhece nenhum que a tenha feito. Rita Lopes dos Santos aponta ainda o dedo à publicidade efectuada pelas empresas de criopreservação. “Passam a ideia de que as células recolhidas são garantia de sucesso, quando têm poucas aplicações, e despertam angústias nos pais que não podem fazer. Esses pais não são negligentes”. 
Grávida de 29 semanas, Patrícia Bastos, 31 anos, encara a criopreservação como “um seguro de vida”. À semelhança do que decidiu na primeira gravidez, também agora criopreservará as células do segundo filho. Conhecia o processo, amigas suas já o tinham feito, e por sugestão da médica que a seguiu durante a gestação ponderou com o marido os prós e os contras. Não foi preciso pensar muito. “A utilização de células hoje é limitada, mas com a direcção que a investigação está a tomar dentro de alguns anos terá mais aplicações”. E se nunca vier a recorrer às células guardadas? “Não me vou arrepender”, garante. “Deus queira que nunca use, mas sei que se precisar, as células estão lá”. Tal e qual um seguro de vida.