Impacto psicológico nas crianças e adolescentes não pode ser ignorado.

As crianças e os adolescentes estão a lidar com esta nova realidade de forma muito distinta dos adultos e as suas emoções expressam-se de formas igualmente diferentes. Aos pais cabe tentarem atender às necessidades psicológicas dos jovens e detetarem precocemente situações mais graves.

Dra. Marisa Marques
Psicóloga Clínica e Psicóloga da Infância e Juventude

A saúde mental e psicológica das crianças e adolescentes jamais deverá ser ignorada, muito menos, em situações de emergência como a vivemos nos dias de hoje, com a pandemia da COVID-19 A prevalência das perturbações mentais entre as crianças e adolescentes tem aumentado nos últimos anos, sendo que 1 em cada 5 crianças apresentam problemas de saúde psicológica , ou seja, cerca de 20% das nossas crianças têm um ou mais problemas de saúde mental. Sendo que apenas 25% do total são referenciadas a serviços especializados e recebem tratamento apropriado. Além da prevalência elevada, o que se torna igualmente preocupante são os níveis acentuados de persistência, sendo, por seu turno, um dos principais preditores dos problemas de saúde mental na idade adulta (OPP, 2014), motivos que as torna em grandes encargos para a nossa sociedade, quer a nível humano como financeiro.

 

NOVA REALIDADE

Com origem na China, em meados de dezembro, a COVID-19 chegou a Portugal em março e, desde então, estamos todos a aprender a conviver com esta nova realidade. Sabemos que tudo isto irá passar, mas o evoluir da angústia que manifestamos, que sentimos neste momento, dará lugar a outros sentimentos clinicamente mais preocupantes. Neste sentido, torna-se importante tirar o máximo proveito destes tempos, em que temos mais disponibilidade para estar em casa com os nossos mais queridos, algo que nos queixavamos de não conseguir anteriormente. Por sua vez, as crianças e adolescentes estão a lidar com esta nova realidade de forma muito distinta dos adultos, principalmente porque associam a obrigação do confinamento e as restrições que advém da luta contra a COVID-19 como sendo de clausura, proporcionando um impacto emocional negativo, considerando que estão, de facto, “proibidos” de estar com os amigos e de frequentar eventos sociais. E se, por um lado, nós adultos temos, de certa forma, alguma resistência/resiliência perante esta obrigatoriedade, imaginemos as crianças e adolescentes, com o seu cérebro “on fire” e cheio de energia.

 

PROBLEMAS DE COMPORTAMENTO

Assim, é essencial que os pais estejam atentos, não só para verificarem se os jovens se sentem bem a nível físico e se cumprem os cuidados que a DGS transmitiu, mas também – e não menos importante – ao impacto psicológico que esta pandemia pode ter nas crianças e jovens.
Não podemos descurar que já lá vão, aproximadamente, 4 meses e as saudades da escola e, em especial, dos colega e do convívio começam a apertar e a impaciência das crianças e adolescentes tende a aumentar. Aspeto este que pode proporcionar um aumento de tensão e de problemas de comportamento. E, tal como nos adultos, será muito provável que elas vivenciem sentimentos menos positivos, como ansiedade, medo e irritabilidade.
Todavia, haverá vários aspetos a ponderar, como o medo de serem infetados, o stress prolongado ou a inexistência de contacto com os amigos e os colegas, que irão gerar frustração, irritação e/ou tédio.

 

MANIFESTAÇÃO DAS EMOÇÕES

Estas emoções tendem a ser manifestadas de acordo com a personalidade e o desenvolvimento da criança e adolescente: enquanto uns irão demonstrá-lo verbalmente (o que torna mais fácil para os pais detetarem que algo está errado), outros irão exteriorizar através de sintomas mais físicos, como dores de barriga, dores de cabeça, fadiga, alterações na alimentação (recusa na alimentação ou alimentar-se em excesso), entre outros, o que obrigará a uma atenção maior por parte dos adultos. A cada dia que passa torna-se imprescindível lembrar a toda a população que, perante a situação de pandemia, é fundamental o desenvolvimento de medidas de promoção da saúde mental, de forma a proteger e a ajudar as crianças e adolescentes a vivenciar este momento.

 

LIÇÃO DE VIDA

Um dos conselhos que partilho com todas as famílias e que considero mais influente é que, enquanto sociedade, devemos criar uma rede de suporte inter-familiar e comunitário (banco de ajudas comunitárias), como, por exemplo, proporcionar a entrega de medicação ou alimentação aos nossos familiares mais vulneráveis ou mesmo a vizinhos que tenham dificuldades na mobilidade, fomentando, desta forma, uma rede de apoio psicossocial. Estes comportamentos, claramente, são uma ótima forma de ocupar os mais novos, ao mesmo tempo que constituem uma grande lição de vida, promovendo nos mais pequenos sentimentos positivos e de entreajuda.

 

FOMENTAR UM ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL

Neste sentido, remeto-vos para algumas recomendações baseadas nas diretrizes da National Association of School Psychologists, que alertam para a tendência das crianças e adolescentes tornarem-se fisicamente menos ativos e passarem a maior parte do tempo em frente à televisão, internet ou consolas de jogo. E agora, a chegada das férias de verão suscita uma tendência ainda maior para que as crianças se tornem fisicamente menos ativas e percam as rotinas pré-COVID-19, que são essenciais ao seu desenvolvimento psicológico. Outro aspeto a considerar é o relativo à aquisição de padrões irregulares de sono e dietas menos favoráveis. Estes efeitos negativos na saúde serão agravados se as crianças e adolescentes permanecerem em casa, sem atividades ao ar livre e sem interação com os amigos. Pelo que é importante motivarmos as crianças a manterem um estilo de vida saudável em casa, aumentando as atividades físicas, mantendo uma dieta equilibrada, bons hábitos de sono e uma boa higiene pessoal.

 

HORÁRIOS E ROTINAS

Sabemos que, cada vez mais, as crianças passam demasiado tempo em frente aos ecrãs, constituindo num ciclo improdutivo no desenvolvimento pessoal, com menor interação social e interpessoal, comprometendo, por seu turno, várias competências pessoais e sociais imprescindíveis para uma boa e saudável integração na sociedade. Neste sentido, mesmo no período de férias, deveremos criar, em conjunto com as crianças e adolescentes, horários e rotinas que devem ser inevitavelmente cumpridos. Então, é importante planear bem o dia a dia e programar uma panóplia de atividades diversas para fazer em casa. Sabemos que 15 minutos de atenção e dedicação exclusiva ao seu filho, num momento de brincadeira diária, tem um efeito muito positivo na sua relação com ele e aumenta os comportamentos de colaboração. Inclua atividades que eles desejem fazer, mas sugira também, por exemplo, desempenhar tarefas domésticas em parceria, tais como preparação de sobremesas ou arrumar brinquedos, incorporando técnicas de gestão do tempo. Note-se: é fundamental limitar e monitorizar os tempos de visualização da televisão ou o acesso a informações na Internet e nas redes sociais, particularmente durante a noite, pois estas alteram as rotinas de sono.

 

PROCURAR AJUDA É SINAL DE FORÇA

O mais importante é, sem dúvida, utilizar todos estes tempos em casa para criar uma boa oportunidade de interação entre a família. Com tranquilidade e atenção, os laços familiares podem ser fortalecidos e as necessidades psicológicas das crianças atendidas. Como tal, nunca desvalorize os sintomas mencionados anteriormente, o que as crianças e os adolescentes nos vão transmitindo, porque todos os sintomas são reais. É importante nunca negar os sentimentos deles, nem achar que “passa com o tempo”, mas sim ajudá-los a sentirem-se mais confortáveis, a falarem com os pais acerca do que os incomoda e assegurar-lhes que serão capazes de lidar com esta situação eficazmente. Ainda assim, permita-me acautelar para que todo este cenário pode caminhar para situações mais graves, como tristeza ou depressão, as quais podem ser travadas se os sinais forem reconhecidos precocemente e encaminhados para um profissional, nomeadamente um psicólogo. Lembre-se que não é possível “carregar num interruptor e desligar os sintomas”. Os problemas de Saúde Psicológica não dependem da “força de vontade”. É natural que, por muito que a criança ou adolescente queira sentir-se melhor e comportar-se de forma diferente, não o consiga fazer. Procurar ajuda é um sinal de força e não de fraqueza.

Uma em cada 5 crianças apresentam problemas de saúde psicológica , ou seja, cerca de 20% das nossas crianças têm um ou mais problemas de saúde mental.

Sabemos que 15 minutos de atenção e dedicação exclusiva ao seu filho, num momento de brincadeira diária, tem um efeito muito positivo na sua relação com ele e aumenta os comportamentos de colaboração.

Todo este cenário pode caminhar para situações mais graves, como tristeza ou depressão, as quais podem ser travadas se os sinais forem reconhecidos precocemente e encaminhados para um profissional, nomeadamente um psicólogo.

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