Hipertensão arterial

Menos sal menor mortalidade

hipertensao 1 artigo

Pelo Prof. Mesquita Bastos, Presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão

O RECENTE FÓRUM DO SAL, UMA INICIATIVA DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE HIPERTENSÃO, VISOU CONTINUAR A LUTA CONTRA O CONSUMO EXCESSIVO DE SAL, PARA QUE SEJA POSSÍVEL OBTER RESULTADOS POSITIVOS NO COMBATE ÀS DOENÇAS CARDIOVASCULARES.

A hipertensão arterial é das doenças mais prevalentes no nosso país e no mundo. É considerada uma doença silenciosa por não apresentar quaisquer sintomas alarmantes e identificáveis ao princípio. Na sua fase inicial, a maioria dos doentes não sente absolutamente nada e, aos poucos, a hipertensão vai-se desenvolvendo, até só ser identificada em estádios mais avançados, normalmente com o aparecimento de doenças como o acidente vascular cerebral (AVC), o enfarte agudo do miocárdio (EAM) e a insuficiência cardíaca.

Por ser indolor, a hipertensão é muitas vezes negligenciada pelos doentes, o que faz dela uma doença muito grave. Esta negligência deve-se ao facto dos seus sintomas serem comuns a muitas outras doenças. São exemplos disso as cefaleias, tonturas, mal-estar difuso, visão desfocada, dor no peito ou sensação de falta de ar.

FATORES DE RISCO INTERAGEM E POTENCIAM-SE

É comum ouvir-se a expressão “tensão alta”, mas nem sempre se tem uma noção exata do que isso significa. Na prática, a hipertensão ou tensão alta caracteriza-se por elevados níveis de pressão sanguínea nas artérias, o que faz com que o coração tenha de exercer um esforço maior do que o normal para fazer circular o sangue através dos vasos sanguíneos. Com o passar dos anos, a pressão arterial elevada acaba por lesar os vasos sanguíneos e alguns órgãos vitais, como o cérebro, o coração e/ou os rins, dando assim origem às doenças cardiovasculares.

Na origem da hipertensão arterial estão vários fatores de risco que podem ser classificados em dois tipos: modificáveis e não modificáveis. Os primeiros são aqueles que, numa perspetiva de prevenção, podemos intervir e corrigir. Neles incluem-se o consumo de sal, o tabagismo, o colesterol elevado, a diabetes, a obesidade, a inatividade física e o consumo excessivo de álcool. Um estilo de vida saudável tem uma influência positiva em todos estes fatores de risco.

Já os fatores de risco não modificáveis, tal como a expressão indica, não são passíveis de intervenção. Dizem respeito à idade, ao sexo e à história pessoal e familiar de doença cardiovascular. É de realçar que estes fatores interagem e potenciam-se, tendo a sua associação um efeito sinérgico, aumentando de forma considerável a possibilidade de surgimento de doença cardiovascular.

SAL EM EXCESSO É O PRINCIPAL CULPADO

De todos os fatores de risco, o consumo de sal em excesso é, sem sombra de dúvida, uma das causas importantes para o desenvolvimento de hipertensão arterial. Na verdade, o sal não faz mal, sendo até necessário para manter o equilíbrio do nosso organismo. É o seu excesso que faz mal. O sal, quando consumido em demasia, faz o organismo reter mais líquidos e aumentar o volume, levando a uma sobrecarga no sistema circulatório, prejudicando os rins e contribuindo para o aumento da pressão sanguínea.

O estudo de prevalência de hipertensão arterial e representativo da população continental portuguesa – PHYSA - Portuguese Hypertension and Salt Study –, levado a cabo pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) e apresentado em 2013, mostrou que 95,6% dos portugueses ingere sal acima do máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), cuja recomendação é de apenas 5,5 gramas diárias.

Em Portugal, existe uma cultura gastronómica fortemente enraizada, que muito contribui para estes números alarmantes. No que diz respeito às escolhas alimentares, apenas ¼ da população tem em conta a presença de sal nos produtos embalados. Além disso, 3 em cada 4 portugueses não sabe identificar quais os alimentos que são fontes de sal.

Ler o rótulo é uma atividade importante, que deve fazer parte dos hábitos das pessoas quando vão ao supermercado. O sódio pode aparecer sob diversas designações: teor de sal, sódio, NaCl (cloreto de sódio), Na (símbolo químico do sódio), glutamato monossódico, bicarbonato de sódio, bissulfato de sódio, fosfato dissódico, hidróxido de sódio e propionato de sódio , designações que nem sempre facilitam a interpretação dos rótulos.

IMPORTÂNCIA DO SEMÁFORO DE CORES

O consumo de sal tem vindo a ser objeto de estudo por parte da SPH ao longo dos últimos anos e é no seguimento deste trabalho que a Sociedade organizou a segunda edição do Fórum do Sal, no recente mês de Novembro. O Fórum do Sal teve por objetivo identificar linhas de orientação específicas e eficazes para a redução do consumo de sal em Portugal. Vários especialistas nacionais e internacionais da área partilharam informações e experiências e, em conjunto, procuraram encontrar um caminho que se traduza em resultados práticos quanto à diminuição do consumo de sal.

Entre os principais temas e preocupações a discutidos no Fórum do Sal, esteve a necessidade do semáforo de cores na rotulagem dos alimentos. A SPH tem vindo a desenvolver esforços no sentido de ver aprovada a lei que estipula que todos os alimentos embalados devem ter um semáforo de cores que informa sobre o seu teor de sal: vermelho para os alimentos com muito sal, amarelo com sal moderado e verde com pouco sal. Desta forma, seria muito mais rápido e fácil, no dia-a-dia, fazer a escolha mais acertada e assim reduzir o consumo de sal na alimentação. A rejeição dos alimentos com elevado teor de sal levaria também a que a indústria alimentar reduzisse o conteúdo de sal nos alimentos que produz ou confeciona.

DEFINIR UMA MEDIDA STANDARD

No decorrer do Fórum do Sal, também foi debatida a importância de definir uma medida standard de sal, que as pessoas possam aplicar facilmente no seu dia-a-dia. Por exemplo, se eu souber que uma colher rasa de chá equivale a 5 gramas de sal e que este é o limite máximo de consumo, saberei gerir melhor a quantidade de sal que coloco nas refeições que confeciono.

A SPH assume que o português pensa que não consome sal em excesso, pelo que dificilmente o cidadão irá alterar esse hábito. Assim, a avaliação da necessidade de uma campanha de sensibilização foi também debatida. A meta é alargar estas campanhas também à restauração.

A SPH visa igualmente tomar medidas que facilitem a monitorização regular do teor de sal nos alimentos, anunciando periodicamente as marcas com as melhores práticas neste sentido.

Apesar de Portugal ainda se encontrar longe do objetivo no que diz respeito aos valores ideais de consumo de sal, com o estudo PHYSA foi possível verificar uma diminuição do consumo do mesmo em 1,2 gramas por pessoa/dia, comparativamente a 2007. Ou seja, passou-se para um consumo diário de 10,2 gramas, em vez dos 11,4 gramas. Esta descida do consumo de sal associou-se a uma diminuição de aproximadamente de 14 % da mortalidade em Portugal por AVC. A segunda edição do Fórum do Sal surge no sentido de continuar esta luta contra o excesso de consumo de sal, para que possamos continuar a obter resultados positivos no combate às doenças cardiovasculares.

logo saude be


^